21 de dezembro de 2013

POEMA PRA MEIA NOITE

POEMA PRA MEIA NOITE

É meia noite quando a luz se apaga, saudade vem me procurar sem medo.
Estrelas são enfeites pras janelas, a lua guarda todo esse segredo.
Quando as estradas são miragens turvas, quando o teu nome, enfim, é proibido.
E quando apenas o calor da alma são só lembranças de um tempo esquecido.

É meia noite de calar-se insone, e meio é o tempo que te distancia.
O teu olhar é estância em plenitude, o meu amor é luz em poesia.
A noite é um consolo repentido a desgastar-se pela ausência breve.
O tempo é faca que cortando lenta, sangra a demora que em em ti descreve.

É meia noite e no galpão dos sonhos um mate vem amadrinhar o agosto.
As mãos se encontram silenciosamente e de repente corre um "sal" no rosto.
Um beijo demorado toma conta, do rancho em prece, que se enterneceu.
E a saudade que minh'alma tinha, tornou-se a luz que em ti se concebeu.

É meia noite e as horas adormecem e junto à ela tecem madrugadas.
Do amor calado, da saudade turva e um violão que teima em dizer nada.
É meio o sentimento interminável que dividiu-se em dois pra te esperar.
Um vive pelo o dia campo à fora, o outro à meia noite a te buscar.


José Augusto Ferreira
21/12/2013
Verão
Dom Pedrito/RS

29 de novembro de 2013

Ainda que eu não saiba o teu nome!



E um dia, em algum escrito rupestre, vou compreender porque a água do meu mate, esfria antes mesmo de pronunciar o teu nome em silêncio, como um encanto em desatino. Ainda que não saiba o teu nome, eu imagino, como uma saudade lancinante.
Na estrada onde o horizonte é mais perto, a brisa mais espessa e a alegria de chegar, transcende a alma, as casas, o galpão e um resto do arvoredo que sobrou do forte inverno.
Prometi, me benzendo no açude da estância, que ainda que meus dias terrunhos fossem provas de dissonância, eu faria o meu caminho à espera da primavera, sem dor, sem lamento, em teu nome de acalanto, em tua paz de cinamomo. A desconhecida sensação do inevitável, num fim de tarde, no pago em canção.
Te jurei de pés descalços, um poema pela noite, um mate pela manhã.
Sem deixar cair dos olhos uma lágrima que fosse, com o chapéu em minhas mãos.
Hoje venho com a voz em sussurro, bendizer o destino, pra aceitar em minha vida, o que ainda não sei, que ainda não senti, que ainda nem quis ao certo.
Vou libertar-me do acaso e procurar um lugar, onde eu acampe meus dias, num poso bem mais tranquilo, na garupa levo a viola, um pedaço de papel, uma lua prateada e uma estrela lá do céu!

29.11.2013
Primavera/2013
Novembro

7 de novembro de 2013


E se a saudade emponchar a noite ? 
No último fio de inocência, da lã terrunha em lembranças, haverá sido teu rosto, a cobrir-me inteiro em pecado ?
Será o apelo mais gasto, do sentimento em segredo, da dissonância em poema, que me afastaste de ti ?
E eu fiquei por aqui, na espera que não veio, na antemão do receio, a me queixar pras estrelas...
Deu saudade do sorriso, do abraço demorado, do silêncio inacabado, da luz por sobre meu quarto.
Em paz. Na paz da lua e das estradas, nunca esqueci teu nome, nas longínquas madrugadas.
Não te ganhei primavera e te perdi tão inverno.
E te senti tão distante e me senti em tuas mãos, a padecer repentino na ilusão transitória.
E volta agora em memórias pra me inspirar novamente.
Como que a chuva desaba em meu jardim solitário, se a semente do amor, levaste inteira contigo ?
Me explica como a saudade, fez em mim o teu ranchinho, pra te amar assim, sozinho, percorrendo o corredor ?
E me diz como esse amor, que mescla a paz do passado, e um presente inacabado que se turva em teu olhar ?
Será que vamos estar daqui uns anos, talvez, num retrato amarelado, de bronze antigo que guardo numa estante, emoldurados ?
Ou vamos trocar as fotos, pelos fatos consumados, num galpão num fim de tarde, pra bendizer a saudade, que viverá em nós dois ?

E se a saudade emponchar o dia? 
Saberás viver a espera, a vagar pelos caminhos ?

José Augusto Ferreira 
Novembro/2013
Primavera - Lua Nova

13 de maio de 2013


Pro teu beijo, ser batismo.

Um raio de plena paixão,
Fez-se luz na escuridão...
E toda a paz ascendeu,
Um sentimento mais terno,
Brotou no ventre materno,
Então nosso amor, nasceu!

Os anjos deram as mãos,
E a nossa transformação,
Fez do tempo um laço estreito,
Onde a pureza das juras,
Moldava a linda figura,
Que encatava com seu jeito.

O tempo me fez menino,
Frágil, meigo e pequenino,
Do teu colo fiz altar...
Minhas mãos tão delicidadas,
Ainda tão desastradas,
Teimou teu rosto tocar...

E quando o choro engasgava,
- O Silêncio que voltava,
Na tua canção de ninar...
Os anjos vinham nos ver,
Sem a gente perceber, 
Pra esse amor, abençoar..

E hoje mãe, a bondade,
Do teu olhar-majestade,
- Tua alma a transcender - 
Na tua voz meu sossego,
No teu abraço, o aconhego,
Em teu sorriso, o querer...

O meu anjo de ternura,
Moldada em plena doçura,
Deus me deu, em forma humana.
Mas eu te vejo com asas,
Rainha da nossa casa,
Na luz que teu ser emana!

O tempo cumpre a jornada,
E encurtamos a estrada,
Da inocência e do atavismo,
E quantas vezes chorei,
Nos teus braços eu deitei,
Pro teu beijo, ser batismo...

Das histórias bem contadas,
Da amizade enraízada,
De intensa cumplicidade,
À luz do ensinamento,
Fez caminho, onde sustento...
A tua fraternidade!

Eu me tornei bem mais forte,
Mas teu olhar foi meu norte,
Na tristeza e indecisão,
E quando a mágoa visita,
No teu silêncio habita,
- Silenciosa redenção - 

Ainda tenho a saudade,
De um tempo que me invade,
Trazendo em si, nostalgia...
Mas o nosso amor é ciência,
Vai além dessa existência,
E se renova a cada dia!

"Mãe, bem sei de toda a saudade, de um tempo que foi pra nós, um pedaço de papel,
Da escrita do amor em dourado, do choro abençoado, da paz em forma de luz,
Da noite em claro de alento, da esperança em tarde escura, de inverno e de carinho,
Do teu suave perfume, da fragrância em primavera, do teu sorriso em flor,
Eu bem sei dos teus segredos, mas sabe bem mais de mim,
Quando o dia em ti amanhece, meu destino faz sentido, e pouco sei dessa vida...
No teu afeto refaço, uma prece bem baixinho, pra abençoar teu destino, humilde à ti me ajoelho:

- Mãe ainda sou criança
Papai do céu te proteja,
E onde quer que eu esteja
Que eu te veja minha esperança..."

José Augusto Ferreira
Maio/2013
Outono - Dia das Mães

10 de maio de 2013


Rancho Solidão


Um dia eu construí o rancho, aquele mesmo, na beira da sanga, do pastiçal, do varzedo encoberto pelas nuvens!
Naqueles confins de campo, emponchado de geadas e de um maio interminável.
Eu fiz verão pra que não sentisse frio, arrumei o jardim da nossa casa, da mesma forma que teu sorriso havia feito com o meu destino, cuidei de limpar cada cantinho do nosso rancho, ainda que eu fizesse sozinho, nunca me importei com isso, minha única vontade é que pudéssemos ser nós dois ali, com o passar do tempo.
Providenciei as chaves, por mais que o meu desejo era que ele não tivesse tramelas, mas tive medo de deixar aberto e te perder no vento mais frio daquele inverno.
A insegurança me deixou ao relento do acaso, e eu me perdi trancado no porão das minhas memórias, chorei as mágoas num pedaço de papel, que secou as lágrimas no avesso da saudade.
No fim eu fiquei lá, não perguntaram se eu queria “caseriar”, mas acabei sendo vencido pelo cansaço do trabalho, de toda a dor, do lamento fustigante.
O rancho não era nosso, nunca foi, o pior foi descobrir que ele não era meu também, mesmo que tenha construído, ele deixou de ser meu em tua ausência consumada, deixou se ser lar, de ser luz, deixei escapar por entre os dedos.
Reconstruí meus pensamentos, porque sempre esperei demais das pessoas, que não tinham o  “demais” pra me mostrar o caminho ou eu tenha sobrado "demais" no meu próprio desengano.
Me mantenho seguro porque a segurança é um reflexo do que não tive e por vezes não tenho.
Me tornei incrédulo, porque me iludi com facilidade.
Hoje escondo o sorriso, porque não quero que fique à mostra.
Andei por tempos perdido por ter que sempre me encontrar à sombra dos outros, vivendo à ilusão de ter alguém ao meu lado.


José Augusto Ferreira
Maio/2013
Outono

28 de abril de 2013

QUANDO A DOR SE ESTENDE EM TARDES DE DOMINGO



QUANDO A DOR SE ESTENDE EM TARDES DE DOMINGO


Um dia desses, o silêncio atravessou a estrada,
Vestindo a mesma solidez de outros tempos.
Rondou o rancho em uma tarde de mormaço,
E trouxe a chuva nos seus olhos mais tristonhos...

E até parece que sabia as minhas mágoas,
Dessas que a gente guarda em simples descaminho,
Tranquei a porta pra não ver meu sonho em prantos,
Mas fez janela em cada fresta do meu mundo...

Entrou com “ares” de visita já esperada,
Mas ficou vendo o sal do rosto, ao perceber...
Que meu semblante carregado de saudade,
Foi posto à mostra sem ao menos eu querer...

Mas doeu menos que o fardo de outros tempos,
De quem na vida, acostumou-se a domar pingos,
Mas não aprende a embuçalar “amores tortos”,
Desses que a dor estende em tardes de domingo...!

Por um momento, eu vi sangrando os meus motivos,
Quase um lamento a transcender o rancho mudo,
Sentando à sombra de um silêncio malfazejo,
Mas que entedia meu segredo mais profundo...

Ficou apenas a ilusão a desgarrar-se
De uma espera que calou sem ter razão,
Restou um sonho, um pátio grande e o silêncio,
E a saudade a esporear pelo galpão...



José Augusto Ferreira
Abril/2013
Outono

8 de março de 2013

Morri um pouco hoje, mas não foi de amor, que lástima...
Padeci sem querer num pedaço de chão sem dono, de sentimento sem razão.
Chorei sem demonstrar sofrimento,
É como estar com um frio dentro de si e pegar toda à chuva que atravessa a estrada.
Não me fez melhor, nem me senti melhor, é diferente, estar bem e parecer bem.
Um dia morri de amor, faz tempo, tenho saudade e quem não tem saudade do tempo que poderia chamar de amor o que realmente era sentimento?
Hoje eu morro, nem tanto por sua falta, mas por sua descrença contemporânea.
Não tenho coragem de matar um pouco desse sentimento que ainda tem em mim.
Mas padece junto à um resto de outono, dolorido...
Morri bem mais que ontem, matou-se um silêncio torturante.
Pena que não foi de amor, pena que não foi de saudade...

José Augusto Ferreira

6 de fevereiro de 2013

QUANDO A CHUVA FEZ MORADA NAS JANELAS


QUANDO A CHUVA FEZ MORADA NAS JANELAS
(José Augusto Ferreira)

Então a chuva fez morada nas janelas, lá no rincão onde a saudade fez abrigo,
Onde se via ao longe um verde mais liberto, e ao redor um povoado mais antigo.
O céu mudou a sua cor - silencioso - e acinzentado, ganhou forma enternecida,
Num fim de tarde onde o campo esperançava a chuva fina para o pasto ganhar vida!

Pedrinho 'pampa' olhava a chuva cair mansa, quase um retrato inacabado em nostalgia,
Pois refletia uma saudade em cada pingo e seu silêncio tinha espera e poesia...
E foi assim que a distância tomou forma e tinha um mundo - entre rancho e céu cinzento -
Uma tristeza que aos poucos foi embora e uma espera a segredar cada lamento...

Ele era vento, era campo e águas calmas - uma ausência que transborda em solidão...
Mas tinha n'alma um recomeço e outra estrada - pra quando a vida lhe mostrasse uma paixão!
E tinha tudo que era seu, quando quisesse... Mas lhe faltava um abraço e um sorriso...
Aquela chuva lhe ensinou que o tempo é sábio e só desaba quando sente que é preciso...!

Pedrinho olhava a chuva mirando mais longe, imaginava um mundo pleno e encantado,
Com um amor pra dividir seu rancho simples, enquanto encilha o mouro pampa 'dos agrados'...
Voltava à si que debruçado na janela, plantava sonhos pra colher um bem-querer....
E então fitava um sorriso que ali estava, se era real - só o tempo podia dizer....

Então a tarde foi passando lentamente - junto com ela a chuva foi por companhia...
E o sorriso que havia se arranchado, também se foi levando em si toda a magia,
Mas Pedro agora era mais sonho e menos pampa - a calmaria transcendendo o abstrato -
E o amor voltava a ser bem mais que a chuva - e a noite escura foi moldando o seu retrato!


Sobre infância e tropilha!


SOBRE INFÂNCIA E TROPILHA!


Percebo que ainda ando por entre nuvens, que sou o mesmo piá, sonhador de outros tempos, domador das tropilhas da infância, cheia de esperanças e brincadeiras..
Na minha tropa monto num petiço que me leva pra onde quero, que se faz também alado pra os dias que preciso voar alto, mas suas patas mantém-se firme no chão, caso a vida mostre a sua intempérie e me faça permanecer mais calado do que gostaria..
Talvez ele consiga me entender bem mais do que eu mesmo imagino, porque ele está sempre do meu lado e compreende as minhas angústias...
Tubiano, patas brancas, me lembra um pouco do alvor da manhã, a mansidão do céu, a paz de Deus, a imensidão do universo...
Sabe, talvez tenha crescido bem mais do que gostaria, talvez tenha cruzado o vau das tempestades muito cedo, pela extrema necessidade de me fazer compreender e de ser compreendido...
Não, não me arrependo, faria tudo de novo, engoli muitos sorrisos, domei vários desenganos e lamentos e muitas vezes fui mais cisudo e xucro do que precisava!
É troquei cedo meu cavalinho de madeira por um aporreado, mas não foi escolha, foi precisão..
Não confunda seriedade com falta de afeto, nem responsabilidade com amargura..
Sou o mesmo piá que brinca e dá risada, que toma banho de sanga, que chora quando escuta uma música nativista, que ama incondicionalmente..
Mas entenda que trago ganas na alma, de quem passou por tormentas, mas que ficou no campo até a chuva se tornar mansa..
Entenda que sou um retrato do que está comigo, que meus amigos de verdade tem a minha total estima e sabem disso, que é com eles que cavalgo por um lote se léguas e me faço fiador de cada um.. vou na frente pegando a ventania se for preciso, mas não me encolho ante às dificuldades..
Entenda que sou a brevidade do pasto que verdeja, a calma da manhã que brota no pampa, que sou um sorriso sincero, acima de qualquer outro sentimento...
Não me julgue hoje, me acompanhe, sou acima de tudo acolhedor..
Mas não me leve à ilusão, nem utilize mentiras..
Sou leve como uma brisa, mas sou mais forte do que um temporal!


José Augusto Ferreira
09.02.2012

...


"Saudade - Distância"


Aprendi que quando a gente olha pra trás e vê que tudo que é acontece não é ao acaso, temos a nítida sensação de deixar o que não nos pertence tomar posse sobre o que a gente sente, logo passamos a descobrir que o que não nos pertencia passa a morar em um lugar muito especial em nossa mente, em nossa rotina, em nossos pensamentos...
Às vezes penso que por mais que saibamos os personagens, o roteiro é tão indecifrável quanto à própria complexidade humana perante às situações.
Aprendi recentemente que uma parte dos meus pensamentos, já não me pertence...
Mas mora em outras partes inerentes à minha felicidade...
Hoje se pudesse definir um sobrenome à saudade,  acho que seria "Saudade - Distância"


José Augusto Ferreira 
30.01.2012

O LENÇO



O lenço sangra a saudade que a distancia impõe sem medo...
E nele guardo o segredo, porque há de ser verdade...
Há de lutar pelos olhos, que se fizeram morada...
Ao sonhar nas madrugadas, te encontrar num fim de tarde...!

O lenço empresta a sua seda que abriga toda a fragrância
De um amor que invade a estancia e se estende vida a fora...
Fica nele o sentimento, que renasce a cada encontro...
Mas guarda e pena a saudade, de um outro que foi embora!

Assim o lenço pampeano, se fez um memorial vivo...
Um tecido primitivo, com sentidos ancestrais...
Foi sinuelo de baguais que sangraram nas coxilhas
E se fizeram partilha ao lenço dos imortais

O lenço trança as amarras, num orgulho de outros tempos.
E vê na força dos ventos, o minuano a lhe guiar...
Mas quando a tudo desata, na ausência faz abrigo...
E o que trazia consigo, vai se espalhando no ar!

O lenço faz com que o nó, ate em si mesmo uma crença.
De trazer na descendência, verdades que não se vendem.
Por sua estampa mais firme, enternece em seu silêncio...
Calando tudo o que penso nessas horas que transcendem!

Vezes buscando caminhos, num galope mais firmado
O lenço por maragato, vê no sol sua metade.
Semblante de claridade trazendo luz diante as sombras
E esvoaçando desponta retratos de liberdade!


José Augusto Ferreira /Matheus Costa

NA PAZ DA CHUVA!


Na paz da chuva!


E tudo chegou assim na paz da chuva,
Vento, amor e paz que desabaram..
Pra lavar a alma e levar dela um pouco,
Do pouco que em mim ficou...
E veio trazer coisas novas, que a paz da chuva revela..
Batendo junto à janela, molhando a alma em estio...
Que a chuva me leve embora, toda dor e desafeto,
De todo meu sentimento, que fique apenas o amor...
E que entregue em silêncio a paz molhada das horas..
Que regue as plantas lá fora, que me regue um sonho aqui dentro...
E Deus se faça presente na calmaria de um pranto,
No olhar do vento manso, na cura da aridez,
Na quietude da noite que hoje chora e deságua,
Pra acabar com essa mágoa, que meus olhos carregavam..
Que em paz de chuva me venha os melhores sentimentos,
Que entregue à ti um beijo, de boa noite, de alento..
Que eu siga o rumo dos ventos, que eu beba um novo horizonte,
E que meus pés sigam adiante, sem temor e sem revolta..
Hoje meu pranto calado, se tornou a paz da chuva,
Que ela deixe a esperança, pois sei bem que ela volta...

José Augusto Ferreira
22.01.2012

NA GARUPA DO AMOR...


NA GARUPA DO AMOR

Na garupa do amor,
Nem vejo o tempo passar
Nem sei se é sol de verão
Se é banho morno de mar..

Na garupa do amor,
Até viajo dormindo,
Pra não ouvir da tua boca,
Palavras virem partindo..

Na garupa do amor,
Um silencio me acompanha,
E me perturba inquieto,
Com sua rudez estranha..

Mas vivo de sentimentos,
Na garupa do amor..
Mas só tem lugar pra um,
Pois leva junto essa dor..

Na garupa do amor,
Que cavalga receoso,
Um fio que corta o segredo,
E sangra o solo arenoso...

Como um deserto sem cura,
Que aos pouquinhos me mata..
Na garupa do amor,
A saudade desidrata...

E cala num descaminho,
Que todo o tempo me culpa,
Mas morro devarinho,
Com o amor - Na garupa!

José Augusto Ferreira
02.02.2012

MILONGUITA


MILONGUITA

Eu fiz uma milonga, pra clarear tristezas, me mostrar verdades quando a noite vem...
E fui forjando sonhos em cada sonido, nos bordões marcados, à esperar alguém
A melodia inteira foi tomando conta, de cada caminho, como a me guiar...
Campeou a noite grande de alma fronteira, e me fez costado nesse chimarrear...

Eu fiz uma milonga pra falar de amores, pra calar as dores que minh'alma trás...
De quando a alma verte os seus desenganos, e em cada tristeza morre um “poco más”.
Cravou a espora velha da canção antiga, pra mostrar que a vida trás os pés no chão.
Então me fiz milonga nessas horas frias, pra esquentar a alma, pra estender a mão...

Milonga assim te faço com a maula saudade e mesclo a essência da tarde comprida...
Na ponta do teu laço, me prende em silêncio, e faz compania na dor e na vida...
E com teu jeito bueno, me faz mais sereno, me conta os segredos e te faz bendita...
Se tudo cala em volta, te entendo com os olhos, pois sabe o que penso minha milonguita!

Eu fiz uma milonga pra cruzar a estrada, que por mais distante hoje trás recuerdos...
Assim, pra impor respeito, te fiz mais ponteada, te fiz madrugada, pra curar meus medos...
Hoje a ausência assume a forma de lua nova e invade a cada noite pela quincha aberta...
Mas tu por mais esperta se transforma em nuvem, e em certeiro acorde, vem e acoberta!


José Augusto Ferreira
Verão, Março 2011.

Me desculpa as aspas do silêncio!



Não me olha com piedade,
Não te enxergo solução,
Não me peça compreensão,
Do que pra mim é passado...
Meu canto é o mesmo de antes,
Os versos talvez mudaram,
Mas as mágoas que ficaram...
Destoou das dissonantes!

Tenho um lote de saudades,
Que não se compram em bolicho,
Que conquistei por capricho,
Ou um por simples abraço...
Sei que andar é preciso,
Mas hoje espero sem pressa
A solidão que me resta,
É a falta de algum sorriso!

Escuto a voz do silêncio,
É o que tenho e me basta,
Pela cantiga mais vasta...
Tranquilidade e poesia,
Moldado à velha tristeza
Um retrato emoldurado,
De quem tivera um legado
E hoje tem incerteza!

Do que não sinto e me prende,
Tenha ficado esperando,
Uma promessa soando,
Perdida pelo caminho...
Mas hoje descalço, eu ando,
Pisando firme, sem medo,
E o que um dia era medo,
Hoje vai cicatrizando!

Me desculpas as aspas do silêncio,
A dor da espera,
A canção não terminada,
O mate por cevar...
Talvez tivesse então perdido,
Um olhar enternecido...
Que se cala ao te encontrar!



José Augusto Ferreira

LEMBRARÁS


"Me procurando te encontrei, de alguma forma...
Refletindo o clarão de lua nova...
Como a noite que se estende pela sala,
Nos olhares que se cruzam mansamente...
Dos caprichos noite à dentro, pela espera...
Num sorriso que me fez voltar no tempo,
Pra rever o meu silêncio, adormecido...

Teu olhar como a invadir meus pensamentos,
Como o vento que passeia em cada rua,
Me perdi proposital, ao teu encontrar..
Mas entrego a estrela dalva de presente,
Pra fazer-te compania em minha ausência,
E quando olhar pra ela tão brilhante,
Lembrarás do meu olhar eternamente..."

José Augusto Ferreira
(Numa noite de Janeiro..)

FLOR DE MACELA


FLOR DE MACELA


Como uma flor de macela, eu te encontrei por acaso,
Mas não colhi por ter medo, de perder o viço e a cor...
E com olhos de esperança, eu olhei distante a cena..
Da flor dançando no vento e em mim plantando esse amor...

Porque quando a gente espera pra colher a flor bonita,
Existe um mundo que sorri entre o pólen e uma mão...
Rebrotando num amanhã - que colha a flor e beije-a breve...
E eu me faça mais leve, pra regá-la de paixão..

(...)
José Augusto Ferreira
05.02.2012

- Porque prefiro a rima quando o silêncio me cala...

É ASSIM HÁ TEMPOS!


É ASSIM HÁ TEMPOS!


Há muito tempo é assim, é lindo mas é judiado...
De canha venho golpeado, três noites se bem recordo..
Mais uma noite começa, entre chamarra e ressaca,
E a borracheira hoje atraca, amanhã eu nem me acordo..

Há muito tempo é assim, por amores mal curados,
Mas tem que tá bem sestiado, porque a lida é brabosa,
Por isso que ultimamente, eu ando bem ressabiado...
Que um cuera assim repunado, enjoa a vida baldosa...

Há muito tempo é assim, o coração anda inquieto,
E por não ser tão esperto, renasce a história e consome...
O mesmo papo maleva, com intenções bem lonqueadas,
Mas na real nem quer nada, depois que atiça, se some...

Há muito tempo é assim, só pela farra e anarquia,
Pelo bailar das guria, pela junção dos parcero,
Se quiser ir, vai primeiro... Mas me espera sem pressa,
Pois hoje não me interessa mais me entregar por inteiro!

Há muito tempo é assim, desafiando aporreados,
E num jeitão debochado, trago a "roseta" afiada...
"La suerte" trocou de ponta, hermano não facilita,
Pede pra virgem bendita, tu esbarrar n'outra estrada..

Há muito tempo é assim, tenho um abraço fraterno,
E um outro jeito mais terno, para os amigos da lida,
Aqueles que pegam junto, que não refugam bolada,
Que entre mate e risada, estimo por toda a vida...

Há muito tempo é assim, tudo que planta, se colhe..
Mas meu olhar não se encolhe, pra qualquer dificuldade...
Nesse jeito fronteiriço, eu sigo bueno, num tranco...
Só que hoje à meia guampa, mesclo "silêncio" e "maldade"....!


José Augusto Ferreira
11.02.2012