Rancho Solidão
Um dia eu construí o rancho, aquele mesmo, na
beira da sanga, do pastiçal, do varzedo encoberto pelas nuvens!
Naqueles confins de campo, emponchado de
geadas e de um maio interminável.
Eu fiz verão pra que não sentisse frio,
arrumei o jardim da nossa casa, da mesma forma que teu sorriso havia feito com
o meu destino, cuidei de limpar cada cantinho do nosso rancho, ainda que eu
fizesse sozinho, nunca me importei com isso, minha única vontade é que
pudéssemos ser nós dois ali, com o passar do tempo.
Providenciei as chaves, por mais que o meu
desejo era que ele não tivesse tramelas, mas tive medo de deixar aberto e te
perder no vento mais frio daquele inverno.
A insegurança me deixou ao relento do acaso,
e eu me perdi trancado no porão das minhas memórias, chorei as mágoas num
pedaço de papel, que secou as lágrimas no avesso da saudade.
No fim eu fiquei lá, não perguntaram se eu
queria “caseriar”, mas acabei sendo vencido pelo cansaço do trabalho, de toda a
dor, do lamento fustigante.
O rancho não era nosso, nunca foi, o pior foi descobrir que ele não era meu também, mesmo que tenha construído, ele
deixou de ser meu em tua ausência consumada, deixou se ser lar, de ser luz,
deixei escapar por entre os dedos.
Reconstruí meus pensamentos, porque sempre esperei
demais das pessoas, que não tinham o “demais”
pra me mostrar o caminho ou eu tenha sobrado "demais" no meu
próprio desengano.
Me mantenho seguro porque a segurança é um
reflexo do que não tive e por vezes não tenho.
Me tornei incrédulo, porque me iludi com
facilidade.
Hoje escondo o sorriso, porque não quero que
fique à mostra.
Andei por tempos perdido por ter que sempre
me encontrar à sombra dos outros, vivendo à ilusão de ter alguém ao meu lado.
José Augusto Ferreira
Maio/2013
Outono
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