10 de maio de 2013


Rancho Solidão


Um dia eu construí o rancho, aquele mesmo, na beira da sanga, do pastiçal, do varzedo encoberto pelas nuvens!
Naqueles confins de campo, emponchado de geadas e de um maio interminável.
Eu fiz verão pra que não sentisse frio, arrumei o jardim da nossa casa, da mesma forma que teu sorriso havia feito com o meu destino, cuidei de limpar cada cantinho do nosso rancho, ainda que eu fizesse sozinho, nunca me importei com isso, minha única vontade é que pudéssemos ser nós dois ali, com o passar do tempo.
Providenciei as chaves, por mais que o meu desejo era que ele não tivesse tramelas, mas tive medo de deixar aberto e te perder no vento mais frio daquele inverno.
A insegurança me deixou ao relento do acaso, e eu me perdi trancado no porão das minhas memórias, chorei as mágoas num pedaço de papel, que secou as lágrimas no avesso da saudade.
No fim eu fiquei lá, não perguntaram se eu queria “caseriar”, mas acabei sendo vencido pelo cansaço do trabalho, de toda a dor, do lamento fustigante.
O rancho não era nosso, nunca foi, o pior foi descobrir que ele não era meu também, mesmo que tenha construído, ele deixou de ser meu em tua ausência consumada, deixou se ser lar, de ser luz, deixei escapar por entre os dedos.
Reconstruí meus pensamentos, porque sempre esperei demais das pessoas, que não tinham o  “demais” pra me mostrar o caminho ou eu tenha sobrado "demais" no meu próprio desengano.
Me mantenho seguro porque a segurança é um reflexo do que não tive e por vezes não tenho.
Me tornei incrédulo, porque me iludi com facilidade.
Hoje escondo o sorriso, porque não quero que fique à mostra.
Andei por tempos perdido por ter que sempre me encontrar à sombra dos outros, vivendo à ilusão de ter alguém ao meu lado.


José Augusto Ferreira
Maio/2013
Outono

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