6 de fevereiro de 2013

QUANDO A CHUVA FEZ MORADA NAS JANELAS


QUANDO A CHUVA FEZ MORADA NAS JANELAS
(José Augusto Ferreira)

Então a chuva fez morada nas janelas, lá no rincão onde a saudade fez abrigo,
Onde se via ao longe um verde mais liberto, e ao redor um povoado mais antigo.
O céu mudou a sua cor - silencioso - e acinzentado, ganhou forma enternecida,
Num fim de tarde onde o campo esperançava a chuva fina para o pasto ganhar vida!

Pedrinho 'pampa' olhava a chuva cair mansa, quase um retrato inacabado em nostalgia,
Pois refletia uma saudade em cada pingo e seu silêncio tinha espera e poesia...
E foi assim que a distância tomou forma e tinha um mundo - entre rancho e céu cinzento -
Uma tristeza que aos poucos foi embora e uma espera a segredar cada lamento...

Ele era vento, era campo e águas calmas - uma ausência que transborda em solidão...
Mas tinha n'alma um recomeço e outra estrada - pra quando a vida lhe mostrasse uma paixão!
E tinha tudo que era seu, quando quisesse... Mas lhe faltava um abraço e um sorriso...
Aquela chuva lhe ensinou que o tempo é sábio e só desaba quando sente que é preciso...!

Pedrinho olhava a chuva mirando mais longe, imaginava um mundo pleno e encantado,
Com um amor pra dividir seu rancho simples, enquanto encilha o mouro pampa 'dos agrados'...
Voltava à si que debruçado na janela, plantava sonhos pra colher um bem-querer....
E então fitava um sorriso que ali estava, se era real - só o tempo podia dizer....

Então a tarde foi passando lentamente - junto com ela a chuva foi por companhia...
E o sorriso que havia se arranchado, também se foi levando em si toda a magia,
Mas Pedro agora era mais sonho e menos pampa - a calmaria transcendendo o abstrato -
E o amor voltava a ser bem mais que a chuva - e a noite escura foi moldando o seu retrato!


Sobre infância e tropilha!


SOBRE INFÂNCIA E TROPILHA!


Percebo que ainda ando por entre nuvens, que sou o mesmo piá, sonhador de outros tempos, domador das tropilhas da infância, cheia de esperanças e brincadeiras..
Na minha tropa monto num petiço que me leva pra onde quero, que se faz também alado pra os dias que preciso voar alto, mas suas patas mantém-se firme no chão, caso a vida mostre a sua intempérie e me faça permanecer mais calado do que gostaria..
Talvez ele consiga me entender bem mais do que eu mesmo imagino, porque ele está sempre do meu lado e compreende as minhas angústias...
Tubiano, patas brancas, me lembra um pouco do alvor da manhã, a mansidão do céu, a paz de Deus, a imensidão do universo...
Sabe, talvez tenha crescido bem mais do que gostaria, talvez tenha cruzado o vau das tempestades muito cedo, pela extrema necessidade de me fazer compreender e de ser compreendido...
Não, não me arrependo, faria tudo de novo, engoli muitos sorrisos, domei vários desenganos e lamentos e muitas vezes fui mais cisudo e xucro do que precisava!
É troquei cedo meu cavalinho de madeira por um aporreado, mas não foi escolha, foi precisão..
Não confunda seriedade com falta de afeto, nem responsabilidade com amargura..
Sou o mesmo piá que brinca e dá risada, que toma banho de sanga, que chora quando escuta uma música nativista, que ama incondicionalmente..
Mas entenda que trago ganas na alma, de quem passou por tormentas, mas que ficou no campo até a chuva se tornar mansa..
Entenda que sou um retrato do que está comigo, que meus amigos de verdade tem a minha total estima e sabem disso, que é com eles que cavalgo por um lote se léguas e me faço fiador de cada um.. vou na frente pegando a ventania se for preciso, mas não me encolho ante às dificuldades..
Entenda que sou a brevidade do pasto que verdeja, a calma da manhã que brota no pampa, que sou um sorriso sincero, acima de qualquer outro sentimento...
Não me julgue hoje, me acompanhe, sou acima de tudo acolhedor..
Mas não me leve à ilusão, nem utilize mentiras..
Sou leve como uma brisa, mas sou mais forte do que um temporal!


José Augusto Ferreira
09.02.2012

...


"Saudade - Distância"


Aprendi que quando a gente olha pra trás e vê que tudo que é acontece não é ao acaso, temos a nítida sensação de deixar o que não nos pertence tomar posse sobre o que a gente sente, logo passamos a descobrir que o que não nos pertencia passa a morar em um lugar muito especial em nossa mente, em nossa rotina, em nossos pensamentos...
Às vezes penso que por mais que saibamos os personagens, o roteiro é tão indecifrável quanto à própria complexidade humana perante às situações.
Aprendi recentemente que uma parte dos meus pensamentos, já não me pertence...
Mas mora em outras partes inerentes à minha felicidade...
Hoje se pudesse definir um sobrenome à saudade,  acho que seria "Saudade - Distância"


José Augusto Ferreira 
30.01.2012

O LENÇO



O lenço sangra a saudade que a distancia impõe sem medo...
E nele guardo o segredo, porque há de ser verdade...
Há de lutar pelos olhos, que se fizeram morada...
Ao sonhar nas madrugadas, te encontrar num fim de tarde...!

O lenço empresta a sua seda que abriga toda a fragrância
De um amor que invade a estancia e se estende vida a fora...
Fica nele o sentimento, que renasce a cada encontro...
Mas guarda e pena a saudade, de um outro que foi embora!

Assim o lenço pampeano, se fez um memorial vivo...
Um tecido primitivo, com sentidos ancestrais...
Foi sinuelo de baguais que sangraram nas coxilhas
E se fizeram partilha ao lenço dos imortais

O lenço trança as amarras, num orgulho de outros tempos.
E vê na força dos ventos, o minuano a lhe guiar...
Mas quando a tudo desata, na ausência faz abrigo...
E o que trazia consigo, vai se espalhando no ar!

O lenço faz com que o nó, ate em si mesmo uma crença.
De trazer na descendência, verdades que não se vendem.
Por sua estampa mais firme, enternece em seu silêncio...
Calando tudo o que penso nessas horas que transcendem!

Vezes buscando caminhos, num galope mais firmado
O lenço por maragato, vê no sol sua metade.
Semblante de claridade trazendo luz diante as sombras
E esvoaçando desponta retratos de liberdade!


José Augusto Ferreira /Matheus Costa

NA PAZ DA CHUVA!


Na paz da chuva!


E tudo chegou assim na paz da chuva,
Vento, amor e paz que desabaram..
Pra lavar a alma e levar dela um pouco,
Do pouco que em mim ficou...
E veio trazer coisas novas, que a paz da chuva revela..
Batendo junto à janela, molhando a alma em estio...
Que a chuva me leve embora, toda dor e desafeto,
De todo meu sentimento, que fique apenas o amor...
E que entregue em silêncio a paz molhada das horas..
Que regue as plantas lá fora, que me regue um sonho aqui dentro...
E Deus se faça presente na calmaria de um pranto,
No olhar do vento manso, na cura da aridez,
Na quietude da noite que hoje chora e deságua,
Pra acabar com essa mágoa, que meus olhos carregavam..
Que em paz de chuva me venha os melhores sentimentos,
Que entregue à ti um beijo, de boa noite, de alento..
Que eu siga o rumo dos ventos, que eu beba um novo horizonte,
E que meus pés sigam adiante, sem temor e sem revolta..
Hoje meu pranto calado, se tornou a paz da chuva,
Que ela deixe a esperança, pois sei bem que ela volta...

José Augusto Ferreira
22.01.2012

NA GARUPA DO AMOR...


NA GARUPA DO AMOR

Na garupa do amor,
Nem vejo o tempo passar
Nem sei se é sol de verão
Se é banho morno de mar..

Na garupa do amor,
Até viajo dormindo,
Pra não ouvir da tua boca,
Palavras virem partindo..

Na garupa do amor,
Um silencio me acompanha,
E me perturba inquieto,
Com sua rudez estranha..

Mas vivo de sentimentos,
Na garupa do amor..
Mas só tem lugar pra um,
Pois leva junto essa dor..

Na garupa do amor,
Que cavalga receoso,
Um fio que corta o segredo,
E sangra o solo arenoso...

Como um deserto sem cura,
Que aos pouquinhos me mata..
Na garupa do amor,
A saudade desidrata...

E cala num descaminho,
Que todo o tempo me culpa,
Mas morro devarinho,
Com o amor - Na garupa!

José Augusto Ferreira
02.02.2012

MILONGUITA


MILONGUITA

Eu fiz uma milonga, pra clarear tristezas, me mostrar verdades quando a noite vem...
E fui forjando sonhos em cada sonido, nos bordões marcados, à esperar alguém
A melodia inteira foi tomando conta, de cada caminho, como a me guiar...
Campeou a noite grande de alma fronteira, e me fez costado nesse chimarrear...

Eu fiz uma milonga pra falar de amores, pra calar as dores que minh'alma trás...
De quando a alma verte os seus desenganos, e em cada tristeza morre um “poco más”.
Cravou a espora velha da canção antiga, pra mostrar que a vida trás os pés no chão.
Então me fiz milonga nessas horas frias, pra esquentar a alma, pra estender a mão...

Milonga assim te faço com a maula saudade e mesclo a essência da tarde comprida...
Na ponta do teu laço, me prende em silêncio, e faz compania na dor e na vida...
E com teu jeito bueno, me faz mais sereno, me conta os segredos e te faz bendita...
Se tudo cala em volta, te entendo com os olhos, pois sabe o que penso minha milonguita!

Eu fiz uma milonga pra cruzar a estrada, que por mais distante hoje trás recuerdos...
Assim, pra impor respeito, te fiz mais ponteada, te fiz madrugada, pra curar meus medos...
Hoje a ausência assume a forma de lua nova e invade a cada noite pela quincha aberta...
Mas tu por mais esperta se transforma em nuvem, e em certeiro acorde, vem e acoberta!


José Augusto Ferreira
Verão, Março 2011.

Me desculpa as aspas do silêncio!



Não me olha com piedade,
Não te enxergo solução,
Não me peça compreensão,
Do que pra mim é passado...
Meu canto é o mesmo de antes,
Os versos talvez mudaram,
Mas as mágoas que ficaram...
Destoou das dissonantes!

Tenho um lote de saudades,
Que não se compram em bolicho,
Que conquistei por capricho,
Ou um por simples abraço...
Sei que andar é preciso,
Mas hoje espero sem pressa
A solidão que me resta,
É a falta de algum sorriso!

Escuto a voz do silêncio,
É o que tenho e me basta,
Pela cantiga mais vasta...
Tranquilidade e poesia,
Moldado à velha tristeza
Um retrato emoldurado,
De quem tivera um legado
E hoje tem incerteza!

Do que não sinto e me prende,
Tenha ficado esperando,
Uma promessa soando,
Perdida pelo caminho...
Mas hoje descalço, eu ando,
Pisando firme, sem medo,
E o que um dia era medo,
Hoje vai cicatrizando!

Me desculpas as aspas do silêncio,
A dor da espera,
A canção não terminada,
O mate por cevar...
Talvez tivesse então perdido,
Um olhar enternecido...
Que se cala ao te encontrar!



José Augusto Ferreira

LEMBRARÁS


"Me procurando te encontrei, de alguma forma...
Refletindo o clarão de lua nova...
Como a noite que se estende pela sala,
Nos olhares que se cruzam mansamente...
Dos caprichos noite à dentro, pela espera...
Num sorriso que me fez voltar no tempo,
Pra rever o meu silêncio, adormecido...

Teu olhar como a invadir meus pensamentos,
Como o vento que passeia em cada rua,
Me perdi proposital, ao teu encontrar..
Mas entrego a estrela dalva de presente,
Pra fazer-te compania em minha ausência,
E quando olhar pra ela tão brilhante,
Lembrarás do meu olhar eternamente..."

José Augusto Ferreira
(Numa noite de Janeiro..)

FLOR DE MACELA


FLOR DE MACELA


Como uma flor de macela, eu te encontrei por acaso,
Mas não colhi por ter medo, de perder o viço e a cor...
E com olhos de esperança, eu olhei distante a cena..
Da flor dançando no vento e em mim plantando esse amor...

Porque quando a gente espera pra colher a flor bonita,
Existe um mundo que sorri entre o pólen e uma mão...
Rebrotando num amanhã - que colha a flor e beije-a breve...
E eu me faça mais leve, pra regá-la de paixão..

(...)
José Augusto Ferreira
05.02.2012

- Porque prefiro a rima quando o silêncio me cala...

É ASSIM HÁ TEMPOS!


É ASSIM HÁ TEMPOS!


Há muito tempo é assim, é lindo mas é judiado...
De canha venho golpeado, três noites se bem recordo..
Mais uma noite começa, entre chamarra e ressaca,
E a borracheira hoje atraca, amanhã eu nem me acordo..

Há muito tempo é assim, por amores mal curados,
Mas tem que tá bem sestiado, porque a lida é brabosa,
Por isso que ultimamente, eu ando bem ressabiado...
Que um cuera assim repunado, enjoa a vida baldosa...

Há muito tempo é assim, o coração anda inquieto,
E por não ser tão esperto, renasce a história e consome...
O mesmo papo maleva, com intenções bem lonqueadas,
Mas na real nem quer nada, depois que atiça, se some...

Há muito tempo é assim, só pela farra e anarquia,
Pelo bailar das guria, pela junção dos parcero,
Se quiser ir, vai primeiro... Mas me espera sem pressa,
Pois hoje não me interessa mais me entregar por inteiro!

Há muito tempo é assim, desafiando aporreados,
E num jeitão debochado, trago a "roseta" afiada...
"La suerte" trocou de ponta, hermano não facilita,
Pede pra virgem bendita, tu esbarrar n'outra estrada..

Há muito tempo é assim, tenho um abraço fraterno,
E um outro jeito mais terno, para os amigos da lida,
Aqueles que pegam junto, que não refugam bolada,
Que entre mate e risada, estimo por toda a vida...

Há muito tempo é assim, tudo que planta, se colhe..
Mas meu olhar não se encolhe, pra qualquer dificuldade...
Nesse jeito fronteiriço, eu sigo bueno, num tranco...
Só que hoje à meia guampa, mesclo "silêncio" e "maldade"....!


José Augusto Ferreira
11.02.2012



DE TODA A DOR...


Hoje toda a dor se fez presente,
E não me perdoou, nem um pouquinho...

Parece tormenta em tarde quente,
Quando o vento bate em descaminho...

Hoje toda a dor desacorsoou,
Lágrimas que chegam ao natural...

Pior que um sorriso a disfarçar,
É ter que aguentar um temporal...


José Augusto Ferreira
Nov/2011


DA COR DA NOITE
 
Da cor da noite visto um verso de saudade,
Como uma luz à desmanchar-se em teu semblante..
E eu componho uma canção e inacabado,
Vejo teus olhos nas estrelas mais brilhantes...
 
Eu te ofereço um mate novo em cada espera,
Pra te lembrar do sentimento que em mim vive...
Se teu sorriso me reporta à essa ausência...
Assim perece num "até" que em ti não tive...
 
Há de ficar o meu perfume pelas ruas,
E junto à ele, se unirão o sol e o vento...
E mais além hão de tecer novas esperas,
De quem por dentro silencia um sentimento...
 
De toda a face da saudade em desespero,
Existe a mesma lucidez em contraponto,
Mas tenho a fé que revigora os meus sentidos,
E acredito numa história sem ter ponto...
 
Deixo-te então em cada Adeus as reticências..
 
(...)
 
 
José Augusto Ferreira
30.01.2012
 
(Verão)

Além da Mágica das Horas




Além da Mágica das Horas

Pela mágica das horas, que me fez vagar sozinho
Na inércia incontida, sombreada de amplidão...
No compasso incansável que mostrou-me a luz da lua
Nos teus olhos madrugueiros fiz pousada e fiz paixão...

Caminhei por muitas trilhas fui outono e fui razão
Colhi ventos no meu rosto e o inverno foi além...
Cada brisa que sentia foi aos poucos me mostrando...
Que a vida sonha junto quando a gente ama alguém!

É assim que planto sonhos, me tornando terra e luz
Me perdendo em teu sorriso, te encontrando sem querer
Na imensidão da noite, de acalanto e nostalgia
Nossos corações se unem e então formam um só ser!

Vou colhendo sentimentos na intensa comunhão
De quem planta amor e insone faz o outono se estender
Meu olhar calmo e longínquo, te procura tão inquieto
E teus olhos inocentes só me fazem enternecer...

Se o amor anda distante pelas horas que padecem
Mas no pensamento existe pela mágica de Deus
A lonjura assim se apaga e se abranda nos desejos...
De roubar-lhe então um beijo e viver nos braços teus!

José Augusto Ferreira
Maio/2010