7 de maio de 2014

VIDA QUE SEGUE...


Vida que segue...


- E aí? quanto tempo?

Passou já umas semanas daquele nosso último café aqui nesse mesa, te lembra?
É com certeza, lembra sim, mais que eu, posso apostar.
Bueno, mas não vamos falar sobre mim por enquanto, até porque sei que da minha vida tu sabe bastante coisa ou continua não sabendo, ainda não sei.
E aí como tá o coração? Soube que está ainda tentando achar soluções pra si mesmo, não te preocupa... É isso mesmo, uma hora ele ia reclamar pra ti da falta de atenção que tu sempre deste à ele. Ah... Vai doer, mas passa sabe, ele tem formas de nos torturar. Mas a gente sai vivo! Sem um pedaço, ou outro, mas ninguém morreu disso até onde eu sei.
- Eu estou muito bem.
Lendo bastante, aprendendo coisas novas, outras estou relembrando. É o conceito da vida. Dedico mais tempo aos livros do que as redes sociais, do que a tv, o rádio, o celular, ou qualquer outra tecnologia. Mas me mantenho atualizado de tudo, de todos e até de ti mesmo. E tu? Continua com aquela ansiedade pra ver quantas curtidas a tua foto vai ter no face? Ah... Eu imaginava. Tuas preocupações não mudaram. Mas elas mudam, pode contar que sim. A gente começa a ter outras prioridades com o passar do dia.
Minha mãe? Ela continua sendo a sogra desejada por meio mundo, mas pode acreditar, ela é muito melhor como mãe, ela adota todos os meus amigos e tenho muitos irmãos de coração que suprem inúmeros sentimentos, até aqueles que tu achava que me fazia sentir. Descobri esses sentimentos com eles, contigo nunca foi a mesma coisa. Mas tudo bem né ? Vida que segue!
Espero que esteja tudo bem na tua casa, com a tua vida, que tu tenha se resolvido com os teus problemas, tuas fantasias, teus devaneios, tuas futilidades. Torço pra isso e tu sabe que é de coração! Não costumo ficar com rancor de ninguém até porque ele é um veneno que quem sente, sempre acaba digerindo. Não tenho essa habilidade. Tenho outras habilidades... De deixar seguir no vento tudo aquilo que nunca me pertenceu ainda que eu soubesse que estava deixando um pedaço meu ir embora, por aí, voando em outros lugares. Desapego, sabe? É um sentimento de liberdade.
O papo tá ótimo, de verdade, sem ironia... Mas tenho que sair agora, dedico um tempo para mim todos os dias, caminhando, tocando um violão, sorrindo... Acho que tu deveria fazer o mesmo. Ah... pode tomar um café, tá no balcão, aquele mesmo, junto com o açúcar. Fica a vontade, pois se tem uma coisa que sempre preservo é em ser um ótimo anfitrião. O chimarrão deixei só pras noites frias, ainda é minha companhia mais fiel. 
Bueno, um beijo, te cuida, manda lembranças a quem perguntar por mim, até porque sei que muita gente ainda pergunta. Te cuida, ah.. não se preocupa, tô me cuidando, mais do que qualquer outra coisa.

José Augusto Ferreira.
Abril/2014
Outono.

23 de abril de 2014

Então hoje venho à ti, boina na mão e olhos marejados, com a humildade de outros tempos, já gasto pelas esporas, sem a pressa lancinante de outras primaveras.
Malas? Não tenho! O que carrego comigo são lembranças, e elas me conferem um fardo valioso, de ensinamentos e aprendizados, dos quais algumas se apartaram no caminho, afinal resolvi só carregar comigo aquilo que me faz melhor, que transformou a minha vida neste plano.
Mas eu estou aqui, envolto na primavera mais simples.
Não... Eu não estou aqui por mim, estou aqui por nós, hoje sou mais que os capins e as estrelas, sou mais que um pergaminho escrito, sou mais que um rancho em solidão, sou mais essência e menos espera, mais leveza e menos promessas.
Foi assim que eu vi, segurando tua mão, te olhando nos olhos e eu tentando disfarçar um sorriso de felicidade, que já não cabe.
E por ter alma de poço e ter fazer do galpão um templo, te trago aqui as flores mais lindas que encontrei na estrada.
- Te pergunto: Me aceita assim de bombacha? Surradas pela lida, pelos amores, pelas pastagens. 
Minhas alpargatas estão na mala, meus pés estão descalços, meu lenço à meia espalda.
- Meu coração em tuas mãos.
Assim que sou, acabei me despindo de toda a mágoa, de todo o dissabor, de toda a ilusão. E me ponho em teu colo, porque sobre os nossos pés, existem mãos dadas agora, em conexão, em paz.
Te pergunto: Me aceita assim junto à ti ? Pra ter a certeza que sonhar é flutuar, mas que ao teu lado é estar voando.
Desse jeito, simples, sem alarde, uma mescla de tranquilidade e sentando à sombra de um cinamomo. Pra recostar a cabeça no meu ombro e amanhecermos na madrugada olhando o céu, os astros, velando o sono do pampa.
Depois passar a manhã contando causos de outras jornadas, de outras galáxias, de outras domas, montarias, de cavalos afamados, de cuscos, de amores e de verões.
Te pergunto: Me aceita assim do teu lado ? Sem lembrar que a vida tem um amanhã, sem cronograma, sem tempo, sem marcar no calendário, tentaremos enganar o tempo, mesmo que ela seja o senhor da razão, mas deixaremos a nossa razão de lado, pra caminhar na chuva e no barro, no meio do campo.
Tomando mate no frio mais bagual, e tomando banho de açude no dia mais escaldante. Sem receios.
Te pergunto: Te aceita então na minha vida ?
- Não tenho ouro, nem prata, nem lote de campo. Mas tenho um carinho sincero, uma palavra de afeto, um beijo super protetor. 
Uma benção matinal, um abraço interminável. 
Aceita passar os domingos comigo na quietude do galpão ? E rir no meio da madrugada de um sábado sem motivo algum ?
- Vou colocar minhas alpargatas brancas e vamos juntos no meu baio.
- Sim, o lugar é teu!
Eu vim te buscar de alma liberta pra felicidade!
Te convido: Pronto pra estradear sem pressa, sem medo me ser feliz ?

José Augusto Ferreira.
Outono.

1 de fevereiro de 2014

Ainda machuca, sorrateiramente. Me dilacera um acorde da canção, aquela mesma, que eu compus em um setembro interminável. E que cantei pra ti e pra mais ninguém.
Tenho medo de cantá-la novamente, ainda que sozinho.
E ainda lembro daquela canção do Simply Red quando fecho os olhos:
"God bless you, you make me feel brand new, for God blessed me with you, you make me feel brand new. I sing this song 'cause you, make me feel brand new".
Na qual a frase "Você me faz sentir renovado" é a que realmente traduz algo preso no passado. Uma ponte, um elo desfeito como mágica.
Sabe, do inverno e do amor que nutrimos duas coisas permaneceram intactas, o frio e a saudade.
Nunca mais escrevi pra noite e pra lua versos tão bonitos, eles sentam falta de olhá-las com afeto pela janela, quando estava sob teu encanto mais profundo, a inspiração era através da respiração. Uma doçura sem precedentes.
Tu sabe o que é esperar o final de tarde caminhando por aí, apenas para relembrar aquelas mesmas cores no horizonte? É, dói como o pôr-de-sol, um sentimento intangível que se escurece como a noite e que deixa estrelas pendurados na moldura dos meus olhos, cadentes são como as lágrimas que refletem a distância. E a lua que se esconde entre as nuvens madrugueiras, é como a ausência do amor que ainda guardo desde a nossa decisão.
A pior decisão que tive, e não foi dizendo Adeus, foi dizendo: "Não esquece que eu te amo, e te levo por aí.. em um sorriso encabulado, em um resto de vida.. em uma lembrança consumada..."
Não vou prometer mais a mim mesmo que pretendo te esquecer, vou prometer que um dia te encontro de alma leve e te dou um abraço de reencontro, como se a gente acordasse em outra vida. Só me promete uma coisa?
Sabe aquele sorriso e aquele olhar que só tu tem, de manhã cedo quando acorda ?
Quando me encontrar, me receba com ambos.
Apenas pra compreender que amor é algo que permanece além-vida.
E eu nesse dia prometerei a mim mesmo, que nenhuma saudade é tão forte, quanto um sentimento inabalável.

José Augusto Ferreira
Fevereiro/2014
Lua Nova




21 de dezembro de 2013

POEMA PRA MEIA NOITE

POEMA PRA MEIA NOITE

É meia noite quando a luz se apaga, saudade vem me procurar sem medo.
Estrelas são enfeites pras janelas, a lua guarda todo esse segredo.
Quando as estradas são miragens turvas, quando o teu nome, enfim, é proibido.
E quando apenas o calor da alma são só lembranças de um tempo esquecido.

É meia noite de calar-se insone, e meio é o tempo que te distancia.
O teu olhar é estância em plenitude, o meu amor é luz em poesia.
A noite é um consolo repentido a desgastar-se pela ausência breve.
O tempo é faca que cortando lenta, sangra a demora que em em ti descreve.

É meia noite e no galpão dos sonhos um mate vem amadrinhar o agosto.
As mãos se encontram silenciosamente e de repente corre um "sal" no rosto.
Um beijo demorado toma conta, do rancho em prece, que se enterneceu.
E a saudade que minh'alma tinha, tornou-se a luz que em ti se concebeu.

É meia noite e as horas adormecem e junto à ela tecem madrugadas.
Do amor calado, da saudade turva e um violão que teima em dizer nada.
É meio o sentimento interminável que dividiu-se em dois pra te esperar.
Um vive pelo o dia campo à fora, o outro à meia noite a te buscar.


José Augusto Ferreira
21/12/2013
Verão
Dom Pedrito/RS

29 de novembro de 2013

Ainda que eu não saiba o teu nome!



E um dia, em algum escrito rupestre, vou compreender porque a água do meu mate, esfria antes mesmo de pronunciar o teu nome em silêncio, como um encanto em desatino. Ainda que não saiba o teu nome, eu imagino, como uma saudade lancinante.
Na estrada onde o horizonte é mais perto, a brisa mais espessa e a alegria de chegar, transcende a alma, as casas, o galpão e um resto do arvoredo que sobrou do forte inverno.
Prometi, me benzendo no açude da estância, que ainda que meus dias terrunhos fossem provas de dissonância, eu faria o meu caminho à espera da primavera, sem dor, sem lamento, em teu nome de acalanto, em tua paz de cinamomo. A desconhecida sensação do inevitável, num fim de tarde, no pago em canção.
Te jurei de pés descalços, um poema pela noite, um mate pela manhã.
Sem deixar cair dos olhos uma lágrima que fosse, com o chapéu em minhas mãos.
Hoje venho com a voz em sussurro, bendizer o destino, pra aceitar em minha vida, o que ainda não sei, que ainda não senti, que ainda nem quis ao certo.
Vou libertar-me do acaso e procurar um lugar, onde eu acampe meus dias, num poso bem mais tranquilo, na garupa levo a viola, um pedaço de papel, uma lua prateada e uma estrela lá do céu!

29.11.2013
Primavera/2013
Novembro

7 de novembro de 2013


E se a saudade emponchar a noite ? 
No último fio de inocência, da lã terrunha em lembranças, haverá sido teu rosto, a cobrir-me inteiro em pecado ?
Será o apelo mais gasto, do sentimento em segredo, da dissonância em poema, que me afastaste de ti ?
E eu fiquei por aqui, na espera que não veio, na antemão do receio, a me queixar pras estrelas...
Deu saudade do sorriso, do abraço demorado, do silêncio inacabado, da luz por sobre meu quarto.
Em paz. Na paz da lua e das estradas, nunca esqueci teu nome, nas longínquas madrugadas.
Não te ganhei primavera e te perdi tão inverno.
E te senti tão distante e me senti em tuas mãos, a padecer repentino na ilusão transitória.
E volta agora em memórias pra me inspirar novamente.
Como que a chuva desaba em meu jardim solitário, se a semente do amor, levaste inteira contigo ?
Me explica como a saudade, fez em mim o teu ranchinho, pra te amar assim, sozinho, percorrendo o corredor ?
E me diz como esse amor, que mescla a paz do passado, e um presente inacabado que se turva em teu olhar ?
Será que vamos estar daqui uns anos, talvez, num retrato amarelado, de bronze antigo que guardo numa estante, emoldurados ?
Ou vamos trocar as fotos, pelos fatos consumados, num galpão num fim de tarde, pra bendizer a saudade, que viverá em nós dois ?

E se a saudade emponchar o dia? 
Saberás viver a espera, a vagar pelos caminhos ?

José Augusto Ferreira 
Novembro/2013
Primavera - Lua Nova

13 de maio de 2013


Pro teu beijo, ser batismo.

Um raio de plena paixão,
Fez-se luz na escuridão...
E toda a paz ascendeu,
Um sentimento mais terno,
Brotou no ventre materno,
Então nosso amor, nasceu!

Os anjos deram as mãos,
E a nossa transformação,
Fez do tempo um laço estreito,
Onde a pureza das juras,
Moldava a linda figura,
Que encatava com seu jeito.

O tempo me fez menino,
Frágil, meigo e pequenino,
Do teu colo fiz altar...
Minhas mãos tão delicidadas,
Ainda tão desastradas,
Teimou teu rosto tocar...

E quando o choro engasgava,
- O Silêncio que voltava,
Na tua canção de ninar...
Os anjos vinham nos ver,
Sem a gente perceber, 
Pra esse amor, abençoar..

E hoje mãe, a bondade,
Do teu olhar-majestade,
- Tua alma a transcender - 
Na tua voz meu sossego,
No teu abraço, o aconhego,
Em teu sorriso, o querer...

O meu anjo de ternura,
Moldada em plena doçura,
Deus me deu, em forma humana.
Mas eu te vejo com asas,
Rainha da nossa casa,
Na luz que teu ser emana!

O tempo cumpre a jornada,
E encurtamos a estrada,
Da inocência e do atavismo,
E quantas vezes chorei,
Nos teus braços eu deitei,
Pro teu beijo, ser batismo...

Das histórias bem contadas,
Da amizade enraízada,
De intensa cumplicidade,
À luz do ensinamento,
Fez caminho, onde sustento...
A tua fraternidade!

Eu me tornei bem mais forte,
Mas teu olhar foi meu norte,
Na tristeza e indecisão,
E quando a mágoa visita,
No teu silêncio habita,
- Silenciosa redenção - 

Ainda tenho a saudade,
De um tempo que me invade,
Trazendo em si, nostalgia...
Mas o nosso amor é ciência,
Vai além dessa existência,
E se renova a cada dia!

"Mãe, bem sei de toda a saudade, de um tempo que foi pra nós, um pedaço de papel,
Da escrita do amor em dourado, do choro abençoado, da paz em forma de luz,
Da noite em claro de alento, da esperança em tarde escura, de inverno e de carinho,
Do teu suave perfume, da fragrância em primavera, do teu sorriso em flor,
Eu bem sei dos teus segredos, mas sabe bem mais de mim,
Quando o dia em ti amanhece, meu destino faz sentido, e pouco sei dessa vida...
No teu afeto refaço, uma prece bem baixinho, pra abençoar teu destino, humilde à ti me ajoelho:

- Mãe ainda sou criança
Papai do céu te proteja,
E onde quer que eu esteja
Que eu te veja minha esperança..."

José Augusto Ferreira
Maio/2013
Outono - Dia das Mães