Então hoje venho à ti, boina na mão e olhos marejados, com a humildade de outros tempos, já gasto pelas esporas, sem a pressa lancinante de outras primaveras.
Malas? Não tenho! O que carrego comigo são lembranças, e elas me conferem um fardo valioso, de ensinamentos e aprendizados, dos quais algumas se apartaram no caminho, afinal resolvi só carregar comigo aquilo que me faz melhor, que transformou a minha vida neste plano.
Mas eu estou aqui, envolto na primavera mais simples.
Não... Eu não estou aqui por mim, estou aqui por nós, hoje sou mais que os capins e as estrelas, sou mais que um pergaminho escrito, sou mais que um rancho em solidão, sou mais essência e menos espera, mais leveza e menos promessas.
Foi assim que eu vi, segurando tua mão, te olhando nos olhos e eu tentando disfarçar um sorriso de felicidade, que já não cabe.
E por ter alma de poço e ter fazer do galpão um templo, te trago aqui as flores mais lindas que encontrei na estrada.
- Te pergunto: Me aceita assim de bombacha? Surradas pela lida, pelos amores, pelas pastagens.
Minhas alpargatas estão na mala, meus pés estão descalços, meu lenço à meia espalda.
- Meu coração em tuas mãos.
Assim que sou, acabei me despindo de toda a mágoa, de todo o dissabor, de toda a ilusão. E me ponho em teu colo, porque sobre os nossos pés, existem mãos dadas agora, em conexão, em paz.
Te pergunto: Me aceita assim junto à ti ? Pra ter a certeza que sonhar é flutuar, mas que ao teu lado é estar voando.
Desse jeito, simples, sem alarde, uma mescla de tranquilidade e sentando à sombra de um cinamomo. Pra recostar a cabeça no meu ombro e amanhecermos na madrugada olhando o céu, os astros, velando o sono do pampa.
Depois passar a manhã contando causos de outras jornadas, de outras galáxias, de outras domas, montarias, de cavalos afamados, de cuscos, de amores e de verões.
Te pergunto: Me aceita assim do teu lado ? Sem lembrar que a vida tem um amanhã, sem cronograma, sem tempo, sem marcar no calendário, tentaremos enganar o tempo, mesmo que ela seja o senhor da razão, mas deixaremos a nossa razão de lado, pra caminhar na chuva e no barro, no meio do campo.
Tomando mate no frio mais bagual, e tomando banho de açude no dia mais escaldante. Sem receios.
Te pergunto: Te aceita então na minha vida ?
- Não tenho ouro, nem prata, nem lote de campo. Mas tenho um carinho sincero, uma palavra de afeto, um beijo super protetor.
Uma benção matinal, um abraço interminável.
Aceita passar os domingos comigo na quietude do galpão ? E rir no meio da madrugada de um sábado sem motivo algum ?
- Vou colocar minhas alpargatas brancas e vamos juntos no meu baio.
- Sim, o lugar é teu!
Eu vim te buscar de alma liberta pra felicidade!
Te convido: Pronto pra estradear sem pressa, sem medo me ser feliz ?
José Augusto Ferreira.
Outono.
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