25 de maio de 2011

Confissão de campo...

 - E assim passaram algumas primaveras, e lá estava..
Como se quisesse entender o que havia ocorrido com seu destino...
Entre alguns mates, se pôs a pensar que algumas coisas em sua vida aconteceram fora de lógica...
Costumava rotineiramente se queixar de seus problemas, por menor que fossem eles..
Semblante cisudo, xucro e fechado, escondia um coração cheio de sonhos.. com alguns meio aos pedaços...
Mas era ele atravessando várias eras, vários tempos, fazendo um caminho por dentro de si mesmo, procurando decifrar, o que não conseguiu durante alguns anos...
O cusco era o mesmo, já mouro, continuava também no seu ofício de companheiro, de todas as horas, talvez a unica compania que lhe fosse fiel desde o início, sempre ao seu lado, em todos os momentos...
O rancho sempre foi o mesmo desde a infância, até que mais taludo, acabou descobrindo "o tal do amor" que pra ele é  "bicho caborteiro, que se achega, pedindo doma, mas que é traiçoeiro...
Pode não te acusar o golpe, mas consegue levar a queda em segundos..."
Sempre pensava e repensava, que como alguém que era totalmente dependente do "bicho caborteiro", hoje não queria nem o ver chegar na porteira...
Eram muitas perguntas, poucas respostas, e assim foi toda a manhã.. entre mates e lembranças...
As impressões que carregava em seu interior era reflexo de um período inteiro...
Hoje era ele mesmo e a solidão, o vazio dos dias, o silêncio do rancho antigo...
O violão ainda era o mesmo, com cordas já gastas, mas com canções habituais a entoar silente...
Mas um dia sentado num banco rude de madeira, e ao abrir uma caixa antiga encontrou um papel amarelado...
Deduziu ser do seu Avô, afinal foi uma das poucas coisas que deixara no rancho antigo...


Nele continha as seguintes frases:


"Feito de barro e carinho, com mescla de amor e suor...
Num fundão de campo bueno, alma de terra e varzedo...
Morava peão e saudade, repartindo mate e silêncio...
Dividindo o mesmo espaço, entre ilusão e segredo!


Tinha o cusco por parceiro, fiel amigo pra os dias...
Em que a tristeza arranchava e invadia a frincha aberta..
Num galpão guardando sonhos que nasciam por metade..
E um canto de joão de barro preenchendo a alma deserta!


Se foram as primaveras, uma a uma, sem alarde..
E foi calando com a tarde o sentimento, o romance....
O amor foi canto e espera, a manhã e o arrebol...
Mas se vai hoje com o sol pra estar fora de alcance!


Nasceram mágoas no campo, nas flores e um resto amargo..
Mas a vida ensina sempre a viver sem guardar dor...
Sem respotas e caminhos, foi repensar seu destino...
Com a rudez no semblante, por pesar e dissabor...


Um dia olhou para o campo, viu que o verde ali estava
E viu que vida mostrava um caminho pra escolher...
Percebeu que tudo em volta perdeu o viço por ele...
O amor que então tivera - morreu por não florescer!


Aprendeu que sem dois lados não se alicerça uma história..
E hoje resta a memória de um amor que não vingou..
Um dia a vida nos mostra, que o sentimento é um legado
Se caminha acompanhado ou fica com o que restou!"








Ao terminar de ler aquilo, encheu seu olhos de lágrimas e começou a entender algumas dúvidas que nunca conseguiu responder...
O amor era mesmo um bicho caborteiro?
A vida tinha sido injusta?
Será que tinha medo de ser feliz? 
Então, guardou de volta na caixa o mesmo papel, e ao fazer o caminho do pátio até o interior do rancho... 
Se passaram cenas em seu pensamento...
Ainda assimilando o que aqueles versos tinham feito com a sua visão de vida...
Sentou, fez um mate bueno, acariciou o cusco "viejo", que parecia entender o que estava passando na sua mente naquele momento... 
Compreendeu que a sua vida era incompleta apenas por conta de si mesmo...
Foram vários mates ao longo dos dias...
O caminho segue... mas hoje se transformou por dentro...




Depois de duas décadas da sua infância é como se estivesse nascendo novamente...!




José Augusto Ferreira
Maio - Outono/11.

Nenhum comentário:

Postar um comentário