Capim e Estrela - (Relato de Amor no Campo)
Viver no meio de tantos é como sentir que o tempo não passa, mesmo sabendo que as nuvens passam como um ciclo...
Ser capim entre outros é uma tarefa quase imperceptível, mas desgastante na maioria das vezes, por motivos particulares, por saber que nem tudo é igual, por mais que possa parecer, cada um tem seus sentimentos, seus defeitos e suas qualidades, todos enfrentam a chuva, mas cada um tem maneira de se sair perante à ela....
O verde que molda à todos, age em cada um de forma diferente...
Sou o capim que consegue mesmo estando imóvel, andejar por entre os brados, através dos sonhos que me povoam os pensamentos, de respirar o ar que me faz balançar suavemente, de compreender o sentido de liberdade mesmo parado, de beber sereno, de cruzar geadas e sol forte, de sentir dor muitas vezes, mas passar por tudo isso e me sentir mais forte...
Sabe, ser capim é estar rodeado de muitas pessoas, mas sempre achar falta de alguém, estar junto à muitos e sentir-se sozinho na maioria das vezes, agregando a espera de maneira inconsciente...
Eu capim, me apaixonei, talvez tenha sido esse meu maior devaneio e minha maior conquista de liberdade e espaço, imagina o que esse sentimento faz no peito de um mero capim, ali... no lugar dele, quase que imperceptível.
O amor foi o único vento que me golpeou por inteiro, mesmo já tendo encarados tormentas e enchentes, a brisa mansa do encantamento é mais forte do que a intempérie da indiferença.
À noite sempre costumava por capricho olhar o céu e a sua imensidão que na minha opinião fica mais acentuada madrugada a dentro, reparava a lua, as constelações, o universo como um todo, tentando compreender porque quando a noite chegava a minha dor diminuia, e porque de maneira "inexplicável", o céu se aproximava do pastiçal e do varzedo, à luz do dia nunca fora dessa maneira, mas à luz da lua se tornavam as coisas ao redor mais "visíveis"...
Certa vez, num momento de reflexão, de inquietação emocional, eu pude compreender o destino das estrelas e como sua sina era parecida com a nossa, todas estavam ali, juntas, praticamente da mesma forma, mas juntas clareavam a noite escura, eram luzes das madrugadas frias e silentes, talvez representassem para a noite, o que nós capins representamos para o bioma pampa...
Em especial os dias foram passando, sorrateiramente, e em determinada noite, eu pude reparar numa estrela mais ao sul de onde me encontrava, uma estrela com um brilho diferente, não era a maior, nem era a mais destacada, mas seu brilho era simplesmente mágico, se diferenciava por ser ela mesma, tinha uma forma particular de se expressar...
Ela me conquistou, passei dias em estado de êxtase puro, acho que nem balançava mais quando o vento batia em meu rosto, fiquei paralisado... nem vi os dias passarem, nem as horas, nem me dei conta se tinha chovido ou se continuava seco..
Ela estrela, sabia ser o certo na hora certa, tinha o brilho ideal para iluminar as noites grandes, sempre estava lá, quando precisava de um refúgio da vida rotineira e sem graça...
Pude entender que a gente tinha um mundo inteiro entre nossa paixão, que ela me observava lá de cima, e eu a vigiava daqui de baixo, era incrível como essa distância era insignificante diante dos meus sentimentos mais verdadeiros, chegava a ser surreal, mas a pampa inteira parecia entoar cantigas como se estivesse vivenciando cada verso que fazia para a estrela mais bonita de toda a galáxia...
Um dia sem me dar conta, percebi que só poderia tê-la a noite, e nem tinha percebido isso antes, tal a intensidade do encantamento que me encontrava, então comecei a sofrer gradativamente com sua ausência, mesmo tendo o consolo que só a veria madrugada a dentro, de dia sabia que não podia vê-la ou senti-la...
Eu passei a conviver com os dois opostos, a dor e a ausência com a presença do sol, e a magia quando a lua amadrinhava nosso romance...
Assim, dessa forma, os dias foram indo, a lua foi trocando de fase constantemente, não sentia mais o brilho dela como antes, ela se afastava de maneira lenta, mas cada vez de um jeito mais conciso e dolorido, era inevitável nessas alturas continuarmos trocando olhares, já não fazia mais parte apenas da minha vontade, mas sim de uma conspiração do mundo ao redor e de outros motivos particulares...
Eu Capim, entre outros tantos, continuei aqui, humilde na essência, fazendo cantigas pra noite e pra lua, continuo enfrentando as intempéries, mais preparado, em relação ao amor nem o encaro, mas o espero, hoje pode ser bom ser igual a tantos, mesmo sabendo que é difícil...
Ela estrela, deve estar brilhando por aí, afinal é a sina delas, iluminar o destino de quem entra eu seu caminho, deve estar em meio as constelações, sei que não esquece das canções mais bonitas, mas não posso impedí-la de seguir sua trajetória...
A noite é a única ligação que ainda temos em comum!
CAPIM E ESTRELA
Eu capim, de alma verde, entre tantos e disperso...
Simplicidade de campo, com humildade no olhar...
Sonhando assim no silêncio, na imensidão do universo
Semblante de quem espera a lua lhe amadrinhar...
Imóvel mas viajante, andejo pelos varzedos...
Ao expressar os desejos que povoam pensamentos...
Buscando a liberdade, sozinho espantando medos...
Quando então o amor golpeou, trazendo o encantamento...
Ela estrela, tem o brilho, qual a canção que se fez...
No jeito tem a pureza, que a noite grande me trás..
Refúgio pleno de vida, calando a insensatez...
Na paixão que se formou, por um instinto fugaz...
Diferente de outras tantas, fez morada no meu peito..
Ao conquistar o seu espaço se arranchou na madrugada...
Fez cantiga à luz da lua, ao expressar o seu jeito...
- Deixou o campo sereno e minha alma renovada -
Eu capim, sombra e espera, com lágrima de sereno...
A vastidão do varzedo e o dia nascendo inquieto...
O vento que inverna o pasto - faz do meu mundo pequeno -
A noite grande é o consolo - e a estrela abriga por certo! -
Ela estrela, luz e alento, me observa lá de cima...
Sabe que tem em seu olhos, as rédeas do meu destino...
Mas os dias foram indo, um a um, deixando rimas...
Calando ao provar ausências, num amargo desatino...
Eu capim, ela estrela, e a pampa amadrinhadora...
As canções intermináveis que a madrugada conduz..
Uma paixão encantada que se faz tão sonhadora..
Unindo o céu e a terra, num só caminho de luz...!
Ela estrela, eu capim, de tanto olhares trocados...
Chegou ao fim uma história, que teimou em se calar...
- O amor é a velha saudade, que bate à porta das casas -
Se arrancha, atiça as brasas, e vai pra não mais voltar!
José Augusto Ferreira
Abril, Outono 2011.

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